domingo, 7 de junho de 2009

ALERGIA

Cantei fundo. Fui no fundo empoeirado da palavra. A poeira da palavra. Fui lá lá longe. Milhas. Jardas. Léguas. Réguas. Réguas. Réguas. Aí rodei. Braço um pra lá, braço dois pra mais de lá. Aí cantei. Qual o nome do nome do que há que há que faz da vida da flor algo finito? Qual o nome do nome do sul do nome do norte? Aí traguei. A flor ali. Também tragada. Bem murcha. Cor de nicotina. Marrom de morte. O verde foi junto com a palavra pra lá. Foi pro fundo também. Aí dancei. Porque é o que há quando não há. Aí dancei. A voz ali. Em volta do meu corpo e por dentro dele. Aí musiquei. Afastei de mim o pó. O pó. O pó que recobria a mim. A pele de mim. Aí espirrei. Porque é que se faz quando tem pó. Quanto tem, tem também alergia e vermelho. Aí espirrei. Atim. Atim. Atim. Assim. Assim. Assim. Saiu do banheiro e me viu assim. Assim. Assim. Assim. Era ela que estava despida. Mas era eu que estava nu. Minha nudez rosada e palavri-palavrizada esperra-marrada nas curvas das minhas próprias pala-la-la-vras caquéticas e alérgicas de mim mesmo. A poeira. Aí miei. Miau. Miau. Miau. Ela miou. Mais menina que qualquer moça menina. Show me from behind the wall. You don’t know me. Ninguém know me. Nobody. Nodody. Aí dancei. Porque se ninguém me conhece, sendo eu alguém dentro dos ninguéns, só me resta o remelexo sem eixo, sem exo, sem nexo. Ela miou. Ele passou. Quem passou? Passou a presença, deixando em mim o azedo brega contemporaneochatisseblábláblá da ausência de ninguém alem de mim em volta de mim mesmo ali sozinho com eles. You don’t know me. E a batida batia batida batizada batia. Aí rodaria. Rodaria se tivesse espaço bom. Mas em volta de mim só tenho o mundo todo. E todo é tudo, mas o que é tudo senão nada vezes nada mais mil vezes nada? Aí ginguei. Sentando. A sombra na parede. Dizendo bem mais do que eu poderia dizer com mil palavras, trinta e cinco milhões e meio de vírgulas e dois pontos de interrogação. As sombras diziam melhor do que qualquer um poderia dizer, porque diziam sem querer dizer tudo que tinham a falar. Aí bolei. Obrigado. Obrigado por ler minhas poeiras, cuidado pra não espirrar.

Um comentário:

disse...

Com tuas palavras,espirrarei até os resquícios existentes em tua rosada,lisa e plena pele.