sábado, 13 de junho de 2009

O MOFO
O mofo. O mofo. O mofo. O mofo gosta de macarrão esquecido sobre a pia e de relacionamentos antigos. O mofo. Fofo. Mofo fofo.
Pode-se ainda dizer que aquele casal era fofo. Olhos doces e ouvidos melados diriam na certa que era casal fofo. Eu que tenho ouvidos e olhos asfaltados digo que era casal mofo.
Se conheciam há sessenta anos. Viviam juntos há sessenta anos. Sessenta anos de convivência. Sessenta anos de cheiros iguais. Vícios iguais. Pupilas iguais. Sessenta.
Se ainda havia amor?
Olha. Amor amor é coisa complicada. Os homens da ciência dizem que o amor é também uma ciência. E que tem prazo de validade curto. Assim como pepino em conserva. Eu que não pertenço às ciências, a literatura, nem a nada vezes nada, digo que o amor é. O amor é. O amor é. Ele é. Sei lá. Fujo das definições nesse momento da minha arte. Fujo de muitas coisas nesse momento. Não quero que recaia sobre mim o peso de elucidar o que, afinal, é o chato do amor. Isso ele é. Chato. Chatinho.
Vamos então dizer que entre aquele casal de velhos existia a comodidade. Prima feia do amor. Parente chato.
Já tinham mais de oitenta anos de história. Sessenta de história em comum. Já não se enxergavam tão bem. Não se escutavam e nem se sentiam com perfeição. Não que antes pudessem fazer essas coisas da maneira perfeita. Ninguém pode. Nem o segundo do orgasmo é perfeito. Já que o segundo que se segue raramente é bom. Enfim. Estavam juntos. Juntinhos. Porque não estar? Libélulas não vivem sessenta anos juntos. Mas eles não eram libélulas. Porque não estar junto nessa altura do campeonato? Quando a morte é companheira de cama? E já rabisca suas cores dissonantes nos joelhos que rangem, nas articulações enferrujadas e nos cabelos de prata? Porque não estar junto se tudo o que tinham a perder já havia sido perdido?
Dentre em breve a morte. A inevitável.
Ele adorava o fato dela o ser. Fazia anos que sua vida era mais amarga que chiclete de limão. E porque não a morte? A morte. Seu porte. A sorte. A morte. O norte. O esposo sabia que a morte traria qualquer alívio. Qualquer blue. Blue. Azul. Azul. Como o céu. Como o véu. Seria boa como uma massagem oriental. Um gozo. Uma seta. O caminho. O passo. O espaço. A explosão. Algodão doce.
A marida não. Não queria morrer. Morrer pra que? Que vem depois daqui? O que é o ali? Essa é a verdadeira dimensão do aqui e do ali. O aqui é aqui e lá é ali. O que assusta na morte não é perder a vida. É o que será da vida dentro da morte. Para ela a morte tinha cara feia. Uma verdadeira baranga. Prostituta barata. Feia de doer. Nariz de batata. Cravos pretos. Buço. Estrábica. Desdentada. Orelha de abano. Capenga. Peluda. Fedida. Tinha a morte como o pus da espinha. A água do palmito. A cárie do dente da frente.
Esposo e marida viam diferentes cores na mesma bochecha. Quando jovens mal pensavam sobre a morte. Claro. Os pensamentos dos jovens raramente ultrapassam sua jovialidade. Eles não eram diferentes. Mas agora pensavam.
Conheceram-se sem querer. E quando se conheceram não queriam. Mas foi. Foi. Foi. Foi. Foi. Oi. Ele disse. Oi. Ela respondeu. Pronto. Depois namoraram. Aí foi bonito. Bem bonito. É muito bonito quando se torna bonito. Beijavam-se muito. Línguas confusas. Salivas na orgia. Micróbios. Paixão. Paixão. Amavam-se. Gostavam de jantar no alemão nas quintas. Sexta era dia de cinema. Aos sábados buraco. E no domingo faziam amor. Faziam cedo porque segunda era dia de tristeza. Amavam-se. Era uma delícia. Sempre é. Sempre é enquanto dura. Enquanto é duro se mantêm. Duro. Duro. Duro. Dura. Dura. Entende? O amor dura o tempo exato tempo em que as duas partes se amam. É absolutamente necessário que ambos se amem. E eles se amavam. E quanto. E muito. E tanto.
Os anos passaram. Desgraçados. Sempre passam. Sempre.
Eles foram indo. Envelhecendo. Aí veio ruga. Crateras fuzilavam suas caras que outrora fora lisa como a casca do pão francês. Vieram os quarenta. Os cinqüenta. Os sessenta. Os setenta. Os oitenta e pronto. Mal podiam se lembrar das lembranças coloridas. E quando lembravam faltavam as cores. Era triste. Bem triste. Espiem só:
Certo dia foi chamar a esposa para que buscasse qualquer coisa pra ele e PUM. Não lembrou do nome dela. Não lembrou. Não lembrou. Não lembrou. Como pudera? Como conseguira esquecer o nome da mulher com quem dividia a cama há sessenta anos? Esqueceu. Simplesmente esqueceu. Um relâmpago de gelo atravessou todo seu corpo. Não lembrava. Sentou. Ficou ali horas. Nada. Sentiu vergonha de si. Raiva de si. Qual o nome da força que conseguira apagar o nome da única mulher que havia amado na vida? Pegou papel e caneta. Escreveu mais de trezentos nomes. Nenhum deles eram ele. Fez um origami. Chamou a mulher. Olhou-a. Bem fundo. Dentro do centímetro mais fundo da ruga mais feia. Nada.
A dúvida arregaçava-o por inteiro. Como um milhão de vespas caribenhas devorando a octogenária epiderme. Verme. Verme. Verme. Sentia-a se um verme. Verme de si mesmo. Vergonha de si mesmo. Um urubu plebeu. Rei que perdeu. Sem coroa. Rei com o trono dentro do ânus. Sentia-a se humilhado. Precisava saber o nome da esposa. Da mulher com quem viveu sessenta anos. Vinte e um mil e novecentos dias. Só o nome. O nome. Maldita velhice. Veneno lento. Como o ser humano chega a tal ponto? Com corpo e mente mais bambos que equilibrista bêbado de Absinto. Como borboleta de asas de fino chocolate. Tão frágil. Como era cruel a velhice uma vez passada a experiência da juventude. Como era cruel não lembrar aquele nome. Só o nome. Era o mínimo. O mínimo. O mínimo.
Regina? Eliana? Ana? Jordana? Cleide? Marlene? Madalena? Suzana? Márcia? Aline? Josilene? Joselina? Cristina? Maria? Joana? Fabíola? Fábia? Fabiana? Ingrid? Irene? Ivone? Iracema? Ivonete? Izabel? Isadora? Inferno. Inferno. Inferno. E agora? O nome. O mínimo. A esposa. O nome. O mínimo. A esposa. E agora?
Passou assim sem saber três dias. Tornou-se tão mudo quanto azaléia de plástico. No quarto amanheceu doente. Não foi doença do fígado. Do estômago. Nem do coração. Amanheceu doente de dúvida. Doía muito. Era uma dor arregaçadora. Como se uma grande e grossa agulha penetrasse sexualmente na cabeça do dedão do pé, cutucando o osso. O osso. O osso. O osso. A doença da dúvida. A velhice. A dúvida. A vergonha. O mínimo. O nome. A mulher. A mulher sentou-se na beira da cama. Acariciou suas bochechas de buldog. Olhou-o nos olhos. Eram esbranquiçados como vidro sujo de farinha. Eram tristes. Doentes. E tinham algo de folhas secas. Caídas. Os velhos se olharam. A morte olhou os dois. Fora tanto amor. Tantos lençóis. Tanta nicotina. Música romântica. Saliva. Tanta pele. Tanto amor e. E agora a velhice. A velhice havia roubado o mínimo. O nome. Olharam-se com carinho. A morte costumava olhar com carinho também. Mas estava menstruada e apressada.
A velha apertou a mão do velho. Mãos velhas. Manchadas de ferrugem. Nas veias o mofo. Pintas. A idade. Perdida jovialidade. Fatalidade. Haviam se amado e agora ele nem sabia o nome dela. Queria dizer o quando a amava. O quanto a amou. Queria agradecer. Mas não disse nada. Tinha vergonha de si. Ela chorou. Ele também. Não porque sentia a morte. Mas porque morreria com a dúvida. Olharam-se fundo e se falaram por ali mesmo. No silêncio. Nas lágrimas. Nas mãos.
O coração dele pára.
O sangue não circula. Pára. Sinais vermelhos nas ruas de dentro. Trânsito nas veias. Nas artérias. Pronto. Morre de olhos abertos. Antes os tivesse fechado. Morreu com a dúvida estampada do preto da pupila. Pela primeira vez sem o marido, a velha chorou.

Um comentário:

disse...

A única certeza que nos é dada:A dúvida!