segunda-feira, 8 de junho de 2009

ESMOLA

O que corre na cabeça vermelha coberta pela bandana cor de cérebro da mulher arremessada e esquecida na porta da Igreja? Esquecida até dela mesma como algo que seja considerado ela. De rugas mal desenhadas e curvatura de bicho mal traduzido mal tratado mal sombreado mal humano. Era humana? As patas eram as mesma que as minhas, as antenas também, as estranhezas idem. Será que somos humanos? E será que isso traz alguma vantagem? Não sei. De verdade isso me é escuro. A velha mendiga ali, ao redor dela tudo ao redor redemoinhos de roda ciranda de espectros tão mal feitos quanto suas crateras de velha. Era suja, mas não mais que as hipersociocomportalismobestial dos animas em volta. Disse animais? Perdão, queria ter dito outro coisa. Mas a palavra certa fugiu junto com o ar pelo meu nariz grande e a caneta - hoje desinibida - aproveitou-se da fuga. Agora eu aqui, sozinho no balança balançar bala lá lá lá do ô ô ô buz, sozinho com minhas desafetuosas e afetadas palavras de merda nenhuma. De que me adianta escrever sobre a mendiga velha se ela vai sempre e sempre ser cada vez mais e sempre ser mais mendiga e velha? Queria ter dado esmola, queria que ela também me desse a esmola de que preciso. Todo mundo precisa de esmola. Esmola. De uma mola que impulsione o pulo, de algo desnecessário e chulo. Se desse, não me importaria que com ela, ela comprasse cachaça num botequim tão sujo quanto os pés de Deus. Que compre e que beba e que beba e que beba e que fique bêbada. Já não tem mesmo mais nenhum chafariz de alegria senão o álcool, talvez. Que beba! Que caia! Talvez seja a única coisa que deseje da vida, e é preciso muita coragem pra desejar da vida só um copo de cachaça. Certa dose de cachaça misturada com coragem e desilusão. Quanta desilusão! Ela tem esperança? Ilusões de certo que não. Mas e esperança? Vendo assim acho que não. Ela que faz bem em ser assim. Ter esperança pra que, porque, de que, de quem? De mim? Em mim? Nunca! Só eu sei quantos litros de estrume correm nas minhas veias.

Um comentário:

disse...

Ahh..se me dessem a esmola que necessito!Nada nem ninguém postularia algo e se desiludira em copos e copos de algo que se mistura no sangue que corre dentro de mim!