quarta-feira, 24 de junho de 2009


O BEZERRO ATAÍDE

João era menino quando pela primeira vez saiu de sua fazenda no interior do interior para a cidade. Cidade não é chamada de exterior, e também não pode ser chamada de interior. Então porque o campo é interior se não existe um exterior? Enfim. Mais uma dessas incoerências da língua. João saiu do interior aos nove. Mas antes disso viveu no mato. Era menino do mato. Cheirava a capim orvalhado e tinha o espaço entre a unha e carne marrons de terra. Não sabia o que era videogame e sua boca quase não era capaz de pronunciar a palavra. João era do mato.
Subia em árvores. Andava com os pés nus e de vez em quando colocava minhocas vivas na boca. Era do mato aquele menino. João gostava de gente. Mas gostava ainda mais dos animais. Dentre todos os bichos que João mais gostava, era o bezerro Ataíde o seu preferido. Era um bezerro simpático e gozador. Marrom e branco. João e Ataíde passavam horas juntos. Apostavam corridas, brincavam de pique e adedanha. Não adedanha de papel já que nem João nem o bezerro eram alfabetizados. Mas eles não precisavam da escrita. Ninguém precisa.
Eram os melhores amigos de todo o mundo. A brincadeira preferida era queimar os carrapatos obesos de glóbulos que João catava em Ataíde. Uma linda amizade.
Foi então que João completou nove e seus pais resolveram mudar pra cidade grande. João não quis. Mas os desejos sérios das crianças se perdem na efemeridade dos seus caprichos bobos. Então Seu José, Dona Rosana e João, O Emburrado, foram para cidade. A família se foi. Ataíde ficou. Triste. Triste. Mais triste que manga arrancada do pé. Os dois amigos não puderam se despedir como deveriam. A despedida entre amigos ou deve ser longa o suficiente pra esmiuçar cada canto do que foi a amizade ou tão curta quanto o máximo de tempo que o ser humano menos resistente consegue agüentar debaixo d’água.
O tempo passou. Porque é assim que é. Nós somos obrigados a respirar, o Sol a nascer e o tempo a passar. São leis que existem e que não podem ser reescritas. João virou menino do asfalto. Não só sabia pronunciar videogame como também Playstation e Xbox. E lá longe Ataíde já era boi. João via nascer os primeiros pelos de homem e Ataíde os chifres de boi. Entre os dois ficou aquele abismo. Ambos sentiam saudade um do outro. Mas o tempo havia empurrado até mesmo as boas lembranças para o Aterro Sanitário das memórias. Enfim.
Certo dia Ataíde mastigava capim, quando um homem sobre um cavalo passou agitando o rebanho. Todos os bois então andaram para a direção indicada e entraram numa fila delimitada por duas cercas de madeira. Ataíde era o primeiro da fila. O capim ainda na boca. O que estava acontecendo? Ele não sabia. Bateram forte no seu lombo e ele andou para frente. Conduziram-no para um lado mais afastado e cortaram-lhe a garganta com um facão afiado. Ataíde não teve tempo de gritar. O sangue vermelho pulou para fora do seu corpo. Muito sangue. Muito vermelho. Muito quente. Antes de cair Ataíde teve tempo de pensar em João. E no dia em que queimaram quase quarenta carrapatos. Suas pernas já não podiam mais sustentá-lo. Tombou. A morte então assinou seu nome no brilho dos seus olhos. Morreu com João na cabeça e o capim na boca.
Ataíde e os outros foram levados sem carinho para o corte. Cortaram-lhes. Foram retalhados em pedaços vermelhos e desfigurados. Viajaram até a cidade grande e lá foram embalados. Os restos de Ataíde foram divididos em peito, lagarto, filé mignon, alcatra, picanha, chã-de-fora e chã-de-dentro, fraldinha e etecetara. Foram para o supermercado.
Rosana escolheu cuidadosamente o pedaço de boi que levaria. Por uma infeliz coincidência escolheu justamente um pedaço do que fora Ataíde. Escolheu sua parte mais nobre. O filé mignon. Rosana levou para casa. E no almoço do dia seguinte serviu arroz, feijão, folhas e Ataíde assado.
- É filé mignon. É muito caro, João. A parte mais nobre do boi.
João espetou a parte mais nobre do amigo e levou a boca. Mastigou e engoliu. Será mesmo que aquela era a melhor parte de Ataíde? João de certo diria que não. Mas agora não fazia diferença. Ataíde já estava no estômago de João e mais tarde iria parar na privada. Ataíde viraria bosta. Mas tudo bem. Tudo bem. Tudo um dia virará.

Um comentário:

disse...

O valor se torna mais importante em certos momentos...mas no fim...tudo virá merda...resquícios e lembranças de algo que já fora relevante em nossã existência..e hoje se torna superficial aos nossos olhos..comemos uns aos outros e que se dane o companheiro!